imagemTextoCompaixaoAs pessoas que possuem uma consciência social, sentem compaixão pela enorme parcela da humanidade que sofre por sua condição desumana de miséria, de fome, de falta de mínimas condições de sobrevivência. Mas, geralmente, esquecem de sentir compaixão por uma menor parcela de pessoas que, direta ou indiretamente, cria ou colabora para a co-criação ou a manutenção disso, as que, enfeitiçadas pela materialidade, optam pelo ganho financeiro abusivo, pelo desejo de poder, de status, de “aproveitar a vida”, em que o fim justifica os meios. Não é preciso ser sociólogo ou matemático para entender que, se existem 10 moedas e uma pessoa deseja ser dona de 9 moedas, restará apenas 1 moeda para ser dividida pelas outras 9 pessoas. E, com isso, quem possui 9 moedas vive “bem” e os que dividem a moeda restante, vivem “mal”. O que eu quero colocar aqui em debate é a compaixão pelas pessoas que, de uma maneira ou outra, criam a miséria ou colaboram para a sua manutenção.

Cada vez que vejo nos jornais, nas revistas, na televisão, na mídia em geral, uma pessoa sendo presa porque optou pelo desejo de viver “bem”, e que sabe, ou não percebeu, que, com isso, criou ou colaborou para que milhões de pessoas passassem fome, vivessem na miséria, sinto compaixão por ela. E me pergunto: “Valeu a pena?” Quando é uma pessoa ainda jovem, penso que, quem sabe, terá tempo para refletir sobre isso e, talvez, repensar sobre sua atitude, mas quando já é uma pessoa mais velha, muitas vezes perto do fim da vida, algumas vezes doente, sinto mais compaixão ainda.

Aqui no nosso país, depois de cinco séculos em que, como se diz, só pobre ia para a cadeia, em que alguns bilionários alcançaram essa condição sem atentar para os princípios morais, em que alguns políticos confundiram ocupar a função primordial de um servidor público que é servir o povo e não para servir-se, estamos entrando em uma nova fase, que já existe em outros países, em que a Lei começa a estender-se para todos: os donos das 9 moedas e os que dividem a moeda restante. Essa nova fase que iniciou há poucos anos, veio para ficar, não vai desaparecer, e ela trará o que deve ser a prioridade de todos nós: o fim da terrivelmente injusta desigualdade social.

O nosso país necessita de uma nova consciência social, seja na área financeira, seja na área política. O “ser esperto” deve dar lugar ao “ser fraterno”. A “velha política” deve dar lugar, realmente, a uma “nova política”. Estamos em uma fase de transição entre o predomínio do egoísmo e a chegada do altruísmo, mas, como em todas as fases de transição, alguns ainda aferram-se ao antigo, enquanto alguns anseiam pelo novo.

A revolta dos miseráveis é justa, desde que seja pacífica. A mudança paradigmática dos “donos do poder” e dos “donos das moedas” necessita ocorrer, desde que seja de coração. Como um bom utópico, antevejo o dia em que não veremos mais pessoas sendo presas, nem por roubar uma galinha nem por ser dono do galinheiro. Se esse dia irá chegar logo ou irá demorar, depende de nós.